O dia-a-dia dum Marciano em Vénus, numa casa de mulheres: Sara (a mãe), Maria Ana, Maria Francisca e Maria Rira (mais a cadela Karina)...

Um tremendo desafio para um homem na idade moderna: como compreender, como falar a linguagem delas, como perceber as suas "mariquices", como ralhar sem fazer chorar, como controlar sem ser controlador, como deixar andar mantendo as meninas vigiadas...ufff! Enfim, como ser dominado e achar que se domina tudo...

Estou a escrever isto e já só quero fugir...

Mas a viagem já começou e este marciano vai a caminho de Vénus, com um bilhete só de ida no bolso (com um grande sorriso de felicidade nos lábios...)...

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Espero que não...

Como já referi noutros textos, e com certeza irei repetir mais vezes, a Ana é um poço de eloquência, volta e meia atirando uma frase muito adulta, cheia de personalidade, usando-a no tom e com a atitude certa.

Reza a lenda que eu também era assim. Um puto com a mania de se armar e que dizia expressões ou frases muito engraçadas, por serem totalmente desadequadas para a minha idade, pela expontaneidade e pela forma como as dizia. Não sei se eu seria assim, a Ana tenho a certeza.

E, o "melhor" de tudo, é que nunca se sabe quando vai disparar...

Num destes dias, estavamos a tomar o pequeno-almoço, a única refeição que é quase meter um funil na Ana para que coma e beba tudo...(nisto sai nitidamente à mãe que, para além, de não gostar de comer ao acordar, ameniza e tenta desculpar a Ana por também não querer...). Então lá estavamos nós na velha luta pais/filh@s: do meu lado, "come", "anda lá", "olha as horas", "despacha-te"; ela, por seu lado, ia dando envergonhadas mordidelas no pão, bebia uns tímidos goles no leite...

Para mudar o rumo da conversa, ela pega num estojo da Kitty (essa irritante gata de olhos em bico) e desafia "hoje vou levar isto para a escolinha", ao que respondo "nada disso! isso é para ficar em casa..". E a pequena mamífera afia os dentes (e a lingua) e dispara: "Está-me a querer parecer que tens cara de parvo...Parvo e idiota", depois sorri matreiramente e remata "Tens, não tens,pai?" - Se não tenho, nessa altura fiquei...

Ana, 1 - Marciano,0


Nesse mesmo dia, ao jantar, a meio duma bela refeição familiar, dei por mim estava, porque apesar de ser pai, sou também um homem que aprecia a sua mulher, de olhos fixos no decote da Sara quando sou "acordado" pela Ana : "Paiiii!" -sorriu e rematou "Estás a pensar o mesmo que eu, não estás, pai?". Sinceramente, espero que não...

Ana,2 - Marciano,0

Felizmente o jogo acabou pouco depois e fomos para a cama...

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Post (atrasadíssimo) das férias…



Este ano não postei o normal texto com a descrição das férias, não porque não fomos, mas porque, e nisto o ser-humano tem especial mania, fiquei no pensamento com o pior que aconteceu nesses 15 dias…

Esteve bom tempo? Sim (apesar da água do mar estar fria)!

As miúdas portaram-se bem? Impecáveis!

A cama dos ursos lá estava à nossa espera…

Tudo o que se passou pela praia e arredores foi excelente e recomenda-se.

O pior mesmo foi a viagem de ida, em que a bomba de água do nosso “mini-bus” resolveu “colar” e partir o motor todo… A viagem ficou obviamente estragada, as férias atrasadas um dia, mas a verdadeira “dor” tivemos ontem quando finalmente soubemos o tamanho da pancada… 4500 Euros!!!  Parafraseando a Sara: “Mais valia termos ido para Cuba!”

A somar isto, mais 200 Euros que voaram sem nós no dia do casamento da minha prima, porque, por uma série de razões e acontecimentos e peripécias todas juntas, com uma reclamação no livro amarelo pelo meio, nos fizeram perder o avião… Mas neste caso, doeu-me nem tanto pelo dinheiro, mas por ser o casamento da minha única prima casadoira e porque sabia que seria (e soube que foi mesmo) um excelente, descontraído e divertido dia entre os meus… Enfim! Se eu fosse a Maya, diria que os astros alinharam-se nesse dia para me f……..

Resumindo, foram umas férias que se esperavam low-cost e saíram caríssimas… Para o ano, férias em Aldoar!!!


A Ogresa e a Migalhinha









“Baba Yaga tinha um único dente.” – Assim começa o livro da história que a pequena Ana esta noite escolheu para que eu lhe contasse, já na caminha.

Aquilo que um pai deseja, acima de tudo, é que o livro, a história, o conto a ler nesta altura do dia, seja numa onda calma, pacífica, harmoniosa, para que seja o primeiro embalo duma noite serena e de um sono tranquilo.

O livro chama-se precisamente “Baba Yaga”, de Tai-Marc Le thanh e Rebecca Dautremer,  e reza a história de uma menina só de um dente que, por precisamente ter só esse dente e por ser gozada pelos outros miúdos, se foi tornando cada vez mais malvada.

Ainda na primeira página pode-se ler : “Apesar de tudo, ela queria parecer-se com as outras crianças e aprendeu a assobiar, mentir, arrotar e sobretudo, mastigar com um só dente. Para treinar, ela começou por comer o ser cão, Auau Yaga (…) não gostava de animais (a não ser em guisado).”

Estavam lançados para uma história, no mínimo, estranha, mas de nada me valia recuar, até porque a Ana estava atentamente vidrada a ouvir e aquilo, depois da miúda comer o cão, só podia (achava eu) melhorar.

Viro a página…
“Baba Yaga sentia-se muito só. Como só tinha um dente, ao contrário das outras crianças, resolveu comer algumas. Achou-as bem mais saborosas e decidiu tornar-se ogresa…”

Neste momento, engoli em seco e pensei, por milésimos de segundo, que aquilo que saiu da minha boca não podia ser aquilo que eu percebi…

Mas na verdade era. A Baba Yaga comia crianças que nem ginjas, adorava o seu sabor, mastigava-as dolorosamente devido a ser “unidente”… Foi então escorraçada para viver isolada na floresta, mantendo apenas contacto com a sua mana, a Caca Yaga. (neste momento eu e a Ana esboçamos um tímido sorriso, porque no meio daquele mix de Shreck com Dexter e Hannibal Lecter, descobrimos que a canibal tinha uma irmã Caca, tal como é tratada a pequena Francisca, cá em casa) …

A narrativa acrescenta que “Baba Yaga continuava a comer crianças: tartes de garotos, assados de miúdos com conserva de limão, chouriços de petizes com azeitonas, tirinhas de toucinho com criancinhas…” Até abriu um restaurante, “Cantinho de Petizes”, onde nenhum cliente foi, vai-se lá saber porquê, o que pelos vistos, tornou a “cordial” ogresa ainda mais malvada.

A irmã da ogresa (Caca Yaga) mudou o nome para Madalena ( não me perguntem em que é que esta informação enriquece a história, porque não faço ideia…), casou e “ganhou” uma enteada de nome Migalhinha.

Como a Madalena “gostava imenso” da enteada, mandou que Migalhinha fosse a casa da sua irmã na floresta. Entretanto a miúda, pelo caminho, é avisada por um sapo falante que a tia a vai triturar só com um dente. A miúda fica renitente, apesar do “fio de baba a escorrer pelo queixo da velha” quando a viu à sua porta, até ver o banho quente de imersão que a tia preparou para ela, com nabos e legumes a boiar, qual belo guisado de miúdos…

 A tal Migalhinha lá se consegue escapar da casa da terrível e comilona tia, corre em pânico, sempre com a malvada da tia quase a alcança-la, mas lá se safa e acaba por chegar a casa, conta ao pai que, enraivecido, expulsa a madrasta de sua casa, iniciando-se provavelmente mais um processo complicadíssimo de divórcio.

Para concluir a história, a ogresa voltou para casa furiosa e conclui-se: “Baba Yaga continua com fome.”

Sinceramente, não sei se esta última frase pretende criar alguma empatia entre o leitor e a ogresa, dando a imagem duma criatura terrível todo o livro, mas que no fundo, era um ser-humano (ou mais ou menos) e que tinha fominha e que de fome ninguém deve padecer…

Por mim, que o raio da ogresa morra de fome, chiça!

A história terminou e temi pelas perguntas, por vezes estranhas, da Ana, mas desta vez, talvez por estar perdida de sono, deixou escapar apenas um “Esta era um bocadinho mazinha, não era, pai?”
“Era, filha. Tinha dias, mas no fundo ela gostava muito de crianças. E isso é que era importante…”

Tal livro pode ser lido a crianças com 3 ou 4 anos que não têm o alcance e a capacidade de absorver a gravidade do que se possa ler, mas contar esta mesma história a miúdos de 6 ou 10 anos, pode ser problemático…

Confesso que mesmo eu, já adulto, não prometo que não vá sonhar com uma tipa gorda, feia como tudo, mal vestida, a correr atrás de mim pela floresta, para me espetar o único dente que tem, no seu escuro e assustador sorriso…

A editora do livro é a Editora Educação Nacional. Não conheço, mas desaconselho este livro a menores e a pessoas mais sensíveis.

PS1- Quando escrevi este post, ontem à noite, já todas dormiam lá em casa e fui-me perguntando enquanto teclava “Mas quem, no seu perfeito juízo, compra um livro destes, que faz o Carpenter um escritor simpático?” Descubro hoje, ao mostrar o texto à minha melhor crítica, na habitual pré-leitura, que , devido às magnificas ilustrações do livro, fomos mesmo nós, os pais, que o compramos.
Então, o meu humilde conselho é: que as ilustrações não sejam o único ou mais importante critério na compra dum livro infantil; há que dar uma rápida vista de olhos….

PS2- Ao fazer uma pequena pesquisa "googlar" sobre esta criatura, apercebi-me que, afinal estamos perante um sucesso eslavo, uma personagem mitológica, em relativa escala, o que atesta alguma cultura geral à compra deste livro (ou não?)...pelos vistos, andamos distraidos e fomos iludidos com tais belas ilustrações... 

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

O amor tem limites?!?!

O amor paterno não tem limites, tal como o materno. Crescemos e percebemos ao longo dos anos, que mesmo o amor de filho , e aqui falo só por mim, também não o tem. Isto, felizmente. É bom que neste mundo moderno em que vivemos que tudo é cotado, é limitado, é contado, é contabilizado, existam determinados conceitos, sonhos, desejos e, neste caso concreto (o amor), sentimentos que não se conhecem os seus limites...

Num destes belos momentos familiares caseiros, um belo jantar a 4, já com a pequena gordinha sentada numa cadeira como os demais, pergunto (e aqui auto-flagelo-me e denuncio a minha estupidez por tal) à Ana: "Gostas da Cácá?, ao que ela obviamente concordou, acrescentando um sorridente "bastante", que a nós, pais, enche de orgulho e ternura.
Podia e devia ter ficado por aí, mas quando se é pai, há uma certa ingenuidade (e parvoíce) que se apodera de nós...
Insisti então nesse tipo de perguntas...
"E da mãe gostas?"."Siiiim!".."E do pai?"..."Tambéém".
Até aqui tudo sobre rodas para uma bela noite de harmonia familiar.
Então a mãe, aproveitando o embalo das minhas perguntas e querendo testar a capacidade de resposta da Ana (bem evoluida para a idade, diga-se modestamente, que muitas vezes até a nós nos surpreende), questionou: "Quanto é que gostas da mãe?", ao que a pequena fez uma conchinha com as mãos em cima da mesa, e depois esticando o máximo que conseguiu o braço e a mão direita em direcção ao tecto, respondeu: "Gosto assiiiiiiim".
E para mim, a história devia acabar aqui....
Mas não.
Embalado, perguntei: "E do pai, quanto é que gostas?"
A pequena volta a fazer a conchinha com as mãos, em cima da mesa e "Gosto assiiiiiiiiim", diz a sorrir sem mexer as mãos daquela posição de conchinha....
O meu mundo desabou, os olhos arregalarm-se, o coração desfez-se em lágrimas de sangue e pensei em varrer o meu orgulho de pai para debaixo do tapete...

Ainda disparei um triste "Sóó?"
E voltei ao ataque para fazer-lhe ver uma possivel distração desculpável num pequeno cérebro com 3 anos e meio...
"Quanto é que gostas mesmo da mãe?"
Neste caso, não houve gestos, só um iluminado e luminoso sorriso "Até ao céééeúuuu"
Sim, eu sabia que o céu era bem mais que aquele bracinho de 2 palmos esticado em direcção ao tecto, mas bolas, também não poderia ficar-se por uma conchinha o amor ao pai...
Hesitei mas arrisquei..."E do pai?"
"Do pai? Gostooooo...até ao candeeiro" e aponta com um gesto para o candeeiro que alumiava aquela bela refeição familiar por cima das nossas cabeças. E por 3 segundos, os nossos olhares fundiram-se naquele estúpido candeeiro, que acabara de se transformar numa espécie de homenagem a mais uma derrota paternal...
Para mim , naquele momento, aquele estupido candeeiro transformou-se naquelas nuvens escuras, carregadas de chuva e trovoada que aparecia por cima das cabeças nos desenhos animados...

Levantei-me e fui deitar o meu orgulho ao balde do lixo...

Moral da história: Não façam perguntas a crianças, para as quais não estejam preparados para as suas respostas...

terça-feira, 17 de julho de 2012

Maravilhado com a educação – Parte II


Este Domingo, em casa do avós maternos, aconteceu um episódio, que teve tanto de harmonioso (na perspectiva familiar) como de javardo (na perspectiva das noções básica de higiene infantil).

Ao fim da noite, já depois do jantar, já a mãe começava nos primeiros “Tiago, vamos indo?” e eu levantando-me, no meio da pequenada, resolvo tirar a t-shirt, mandar pelo ar e “fazer músculo” e soltar um ligeiro rosnar, qual Hulk – herói Marvel- claro que em final de carreira, sem músculos e com barriga de cerveja, mas na mesma posição conquistadora e decidida do tal herói verde dos comics…risada geral..

Claro que de imediato, a Ana quis fazer o mesmo e lá fez, mantendo-se a gargalhada generalizada, em clima de algum regozijo meu por uma brincadeira tão parva ser acompanhado por risadas tão soltas pela mãe (e pela mãe desta), e lá continuamos aos saltos, feitos macacos… Chegou então junto a mim a Francisca a desafiar-me, lá lhe tirei também a t-shirt e juntou-se mais uma à festa… Enquanto estava eu e a Ana aos saltos, entre colos e grunhidos e risos e saltos, a Cácá começou a tirar os calções, as crocs e começamos a gritar “Olha o nu…olha o porco nu…” E ela, motivada pelo efeito que estava a causar na plateia, saca da fralda, conseguindo roubar mais uma gargalhada geral…dá 2 passos atrás, sustém-se parada e manda uma mijadela daquelas pelas pernas abaixo, deixando uma poça enorme com os seus pézinhos no meio…

Durante 2 segundos a sala gelou, mas ninguém conseguiu aguentar sem se partir a rir, ao que ela, querendo manter o público na mão, senta-se no meio da poça de mijo a bater com as pernas e a chapinar com as mãos, como se estivesse no banhinho… “chap!chap!chap!”

Quando o nível mais elevado de chavascal parecia ter sido atingido…

Perante aquela “maravilha”, a Ana (já de cuecas e descalça) correu para junto da irmã, escorregou na dita poça e aterrou também no meio da poça de urina, elevando para um grau nunca visto a javardice naquela família, também chapinando como se não houvesse amanhã….

Entre os adultos, enquanto se pegava nas miúdas para as lavar, elas iam deixando pégadas de mijo pela sala, iam saltando, íamos todos rindo, tentando em vão manter alguma dignidade e explicando que aquilo não era a melhor forma de se brincar em casa…Enfim, só visto!!!

Um conselho? Sobre isto não tenho, a não ser : Divirtam-se!

Ah! E quando quiserem “javardar”  desta forma façam-no,  mas façam-no em segurança ( leia-se: em casa dos sogros)


Maravilhado com a educação – Parte I


Então chegou finalmente a data da “visita” ao oftalmologista, para se analisar se na pequena Ana o olhinho direito continua a fugir muito e ver se é preciso ajustar a graduação…

Lá fomos à CUF, quais senhores ricos ou beneficiários de excelentes seguros de saúde facultados pelas empresas que nos pagam o ordenado…Nada mais errado! Tesos, mas nas melhores e mais caras clinicas do país…Ah! E sem qualquer seguro de saúde…

Para relembrar, a Francisca tem na testa provavelmente os pontos mais caros da história da medicina moderna…Se ainda me lembro (porque fiz um esforço para apagar esta memória do meu “disco-duro”) ficou à volta da módica quantia de 180 Euros cada um!!! Felizmente, foi uma cicatriz de 2 pontos…

Antes do relato dos facto, só queria esclarecer que não voltamos ao local do roubo (leia-se "mesmo hospital") por qualquer rasgo de masoquismo, mas porque este médico que acompanha os “olhinhos” da Ana tem consultório privado em Gaia e o preço da consulta é o mesmo. Por isso, entre ter que atravessar a Arrábida e meter-me na confusão “qu`é Gaia”, “caguei” (não resisto a este jogo de palavras) e voltamos ao local onde fomos assaltados meses antes.

Mas voltando à actualidade, eis-nos na sala de espera do Hospital Mello…Eu a ler as várias revistas de propaganda ao grupo hospitalar, que cria em nós uma vontade quase incontrolável de estourar dinheiro em consultas, exames e operações, desde que seja na Cuf… mesmo que isso quisesse dizer que a saúde nos poderia estar a escapar, não interessa: só nos apetece ficar doentes para conhecer todas aquelas caras bonitas e felizes, aqueles sorrisos rasgados de todos os que trabalham lá, aquelas salas de operação lindas, toda aquela luz, aquele brilho, aquele glamour, aquela luuuuzzzz….

Finalmente, sou “acordado” pela pequena Ana que pousa junto a mim, no sofá, um daqueles brinquedos didácticos com 3 arames de cores diferentes entrelaçados entre si, com bolinhas que os percorrem de uma ponta a outra…

Não sei qual o interesse daquilo, e pelos vistos a Ana também não que rapidamente se cansa daquilo e o deixa ficar, imóvel, junto a mim. Outra menina, de uns 6 anos talvez (a Sara é que sabe a idade certa, pois sou péssimo a adivinhar as idades só analisando fisicamente alguém…), pega no dito brinquedo e leva-o para uma mesa de crianças, ao canto da sala, para se entreter. A Ana não gostou da atitude… E a partir desse momento, qualquer coisa que a miúda fizesse, lá vinha a Ana fazer queixinhas: “A menina tirou-me o lápis”; “a menina não me dá um desenho”…peditórios a que nem eu nem a mãe contribuímos e que rapidamente criticamos, para que a Ana não o repita. Aquilo lá passa, vamos à consulta… e “voilá”! boas noticias: a graduação mantém-se, o “olho foge menos”, tudo bem…

Saímos do consultório, e verdade seja dita, este médico sabe tratar crianças, ou então a Ana é mesmo fabulosa a colaborar naqueles exames todos… Ou então ambas as coisas são verdade. Continuando, vamos para outra sala onde temos que tirar um ticket numerado, para pagarmos… Até aqui tudo bem....

Lá aguardávamos pacientemente numa sala com vários sofás, apinhada de gente, quando percebo que a mesma miúda da outra sala está por ali perto, especada a olhar para a Ana. A Ana aproxima-se, diz qualquer coisa que não consegui ouvir, pede-lhe um beijinho e “rouba-lhe” um beijinho no braço da miúda, que continuava imóvel, a olhar para a Ana, de pé, no meio da dita sala.

A Ana afasta-se da miúda, está mais ou menos a 1 metro de mim, já sentado num sofá e dispara elegantemente em voz de discurso eleitoral: “Pai, sabes porque é que a menina está assim?”
Eu, estupida e precipitadamente, enquanto pensava “assim como?”, deixei sair um “Não, porquê?"
E, para meu “orgulho”, a minha miúda dispara em alto e bom som: “Porque quer arrear a giga, pai! Porque quer arrear a giga!”

……………………………………………………………………………………….
Olhei para a mãe que pelo olhar, não se tinha apercebido, e a miúda repetiu convenientemente e desta vez ainda mais alto tais simples e, ao mesmo tempo, fortes palavras…

Claro que apressei-me a disfarçar :”Estes miúdos na escola aprendem cada coisa…Tsss…Tsss…” tentado desvalorizar o incidente.
Duas coisas a reter: 1- nem sempre numa sala de pagamentos, o que nos vai custar mais é o pagar, propriamente dito ; 2- nunca sejam tão descritivos quando estão a sair da sala de estar a caminho da casa-de-banho, com crianças com mais de 3 anos presentes... as pestinhas decoram tudo e, quando menos esperamos, vão usar o que aprenderam contra nós...

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Há precisamente 2 anos...


Porto, 4 de Julho de 2010
6:20…

Sou acordado a meio da noite, meio sobressaltado, pensando que seria mais uma das noites (péssimas) que a Ana estaria a dar.
“Está na hora…Estou com contracções desde as 3 da manhã  e cada vez mais próximas umas das outras…” – explicou-me tranquilamente a mãe venusiana.
“Mas….É para ir para o hospital agora?” – Perguntei meio morcão do sono e enganado por aquela tão grande tranquilidade dela.
“Não…É para irmos ao cinema…Anda lá! Arranja-te para irmos. Já estou pronta…”
Lá me despachei e em menos de nada, lá nos despedimos da pequena Ana (na altura com ano e meio), que dormia sossegada e assim ficou, na companhia da Bó Tiz.

Pelo caminho, fizemos aquilo que sempre sonhámos e que achávamos (e continuamos a achar) que as viagens para o hospital para parir, deviam ser. Todas deviam ser com os 4 piscas, buzinadelas em todos os cruzamentos e ignorar tudo o que era sinais vermelhos pela Circunvalação acima… Foi, digamos, uma pequena montanha russa de adrenalina para o dia que aí vinha e os momentos que planeávamos haviam de se seguir.

Chegados ao hospital S.João e ao serviço respectivo, a parturiante lá entrou e ficou o pai na sala de espera, enquanto a “preparavam”…
Adoro esta maneira nos hospitais de dizerem que vão despir as pessoas e vestir-lhes uma bata (e nalguns casos, uma fraldinha também…)
Lá de dentro, ainda consegui ouvir a mãe “ordenar”: “mas eu quero epidural! Eu quero…”, dando a entender que estariam a sugerir que pudesse preferir o contrário…

Passados uns minutos, lá entrei e fui (porque já conhecia o caminho) até ao quarto onde já estava hospedada a mãe…
Quando foi da Ana, ano e meio antes, tinha sido um pouco diferente, já que a Sara foi internada no dia anterior para induzir o parto, começou com o trabalho de parto a meio da noite e o parto só aconteceu as 20 horas, como tal tinha sido uma “pequena” maratona…
Neste caso, já fomos preparados para tudo…
Mas não foi nada assim….
Lá começaram as movimentações e as medições do costume nestas coisas…”4 dedos”…”5 dedos”…”boa  dilatação”....(esta dos dedos faz-me sempre lembrar a anedota de bater palmas, algo porca, mas que querem? Lembra-me sempre.um dia conto…)…
Até que o Enfermeiro Francisco (que nunca mais vi desde esse dia) foi o mineiro de “serviço” e orientou um parto soberbo…Ele, e a Sara que faz estas coisas todas parecerem tão fáceis e naturais que um homem chega a acreditar que era capaz de conseguir…
Às 9:47 vi pela primeira vez aquela bebé tão bonita e 1 minuto depois o seu enorme rugido (leia-se berro) que ainda hoje faz questão de soltar ferozmente quando as coisas não correm conforme planeia…
O enfermeiro lá fez os arranjos finais e foi com a sua enorme simpatia à sua vida, deixando nos nossos braços o bebé mais perfeito e mais bem desenhado que já tinha visto até então (talvez só equiparada ao meu sobrinho mais velho Miguel, sendo que fui o 1º da família, depois dos pais, a vê-lo poucos momentos depois de ter nascido, e lembro-me bem que nessa altura nem coragem tive de lhe pegar, com medo de o danificar, de tão bonito que era…)
Só para ressalvar, a Ana é uma filha linda (para que ela um dia não leia isto e pense “Porra! Então e eu?”), mas era um bebé meio desconchabado, lindo aos nossos olhos, mas muito franzina e de testa saída…

Voltando ao parto, quero só relembrar que ambas as nossas filhas vestiram como “1ª roupinha” um pijama branco com o juba, desenho do Sporting… É certo que também ambas poucos minutos depois de o vestirem, borraram-nos todos, mas com cócó verde, o que só por si, demonstrava claramente o seu clube de eleição, até nas 1ªs fezes…
Diziam-me os arautos inteligentes “Era o mecónio, por isso, estava verde”… Nada mais errado, meus caros: AS MIUDAS JÁ NASCERAM VERDES POR DENTRO!!!


O que mais doeu à mãe, nesta estadia no hospital, não foram as contracções, nem a dor no parto, nem as “cozeduras”…Nada disso se comparou à dor das noites sem ter a Ana por perto. Lembro-me bem da agonia que foi para ela passar aquelas noites sem a filha… No dia seguinte, levei  a Ana a conhecer a Cácá… Foi giro ver uma coisa tão pequenina conhecer outra ainda mais pequenina e observar a Ana a tocar-lhe, a mexer-lhe, quase como se não entendesse bem o que se passava, se aquilo tinha vindo mesmo da barriga da mãe e, penso eu, se íamos mesmo levar “aquele brinquedo”  para casa…

Poucos dias depois, a família voltou a reunir-se em casa (na altura em casa dos avós maternos) e desde esse dia que o mundo melhorou… Nunca na vida fui mais completo, nem nunca na vida pensei ser capaz concentrar tanto amor em seres tão pequenos, mas ao mesmo tempo, tão meus, tão nossos, que pela vida dela daríamos a nossa sem hesitar.

A Cácá é uma fedelha cheia de personalidade, sabe bem o que quer e não é nada democrática; por outro lado, é capaz de estar horas a brincar sozinha com 2 ou 3 minnies e nem se dar por ela, enquanto a irmã não está 5 minutos sem companhia. São bastante e deliciosamente diferentes, por outro lado, ambas, delicadamente piegas (como a mãe).

Para descrever a relação entre elas não é fácil de definir nem de prever o futuro,  tendo em conta as idades, mas na verdade, à sua maneira pura de sentir e de viver, amam-se incondicionalmente.
Uma destas manhãs, já recentes, em que a família se reúne toda em cima da mesma cama, quando me ia levantar para o banho, vi as duas darem-se no abraço mais sentido, mais carinhoso e mais apertado (queixou-se depois a Ana que se calhar foi um bocadinho apertado demais..) que vi. Sem maldade, sem invejas, sem segundas intenções, nada, eram apenas 2 irmãs, pequeninas, que se abraçaram num amor só delas e ali, fui um privilegiado pai que testemunhei tal.

Melhor do que descrever este amor é deixar-vos o último diálogo pai e filha que tive hoje mesmo com a Ana, antes desta aterrar no sono:
- Filha, gostas da Cácá? - atirei
- Siiiim – respondeu rasgando a boca com aquele sorriso cheio de dentes só dela.
- Muito ou pouco? – testei.
Pensou e respondeu:
- Muito mais que isso….

Assim , no meio deste amor todo, Maria Francisca, dou-te os parabéns e desejo que sejas sempre tu...e eu estarei sempre lá por ti, aqui ou ali! E, no meio disto tudo, desculpa qualquer coisa...